Cicloturismo: Aracaju/Canindé de São Francisco

Editor do site BikeSergipe pedalou de Aracaju à Canindé de São Francisco

José Marcelo Pereira, editor do BikeSergipe

Canindé de São Francisco é o município mais distante de Aracaju.

A neguinha e eu sempre juntos!

Parada em Itabaiana

Trevo de Ribeirópolis, depois de Itabaiana

Casinha de taipa em Ribeirópolis

Sertão de Aparecida

Praça da matriz, em Aparecida

Trevo de Monte Alegre/Porto da Folha/Poço Redondo

Trevo de Monte Alegre/Porto da Folha/Poço Redondo

Chegada em Canindé de São Francisco

Fascinante vista da Hidrelétrica de Xingó

Subestação de Xingó

No feriado da semana-santa, José Marcelo Pereira, editor do site BikeSergipe, foi conhecer o sertão sergipano pedalando. Foram 213 quilômetros entre a capital sergipana e a cidade de Canindé de São Francisco, localizada no extremo norte de Sergipe. Foi o seu retorno ao cicloturismo após um bom tempo longe da estrada.

Acompanhe a reportagem e emocione-se com uma aventura desafiante e curiosa, recheada com a responsabilidade da prática do cicloturismo e do prazer em usar a bicicleta em sua vida.

VIAGEM DE ARACAJU À CANINDÉ DE SÃO FRANCISCO PEDALANDO

Percurso:Aracaju/Socorro/Laranjeiras/AreiaBranca/Itabaiana/Ribeirópolis/Aparecida/Glória/MonteAlegre/Poço Redondo/Canindé de São Francisco
Tempo de pedalada: 10 hs
Distância: 213 kms

Há muito tempo eu desejei conhecer o sertão de meu estado. Cansei de assistir e ler sobre a região e suas dificuldades. Reportagens mostravam o sofrimento dos meus conterrâneos em sobreviver em uma região quase inóspita, carente de água e esquecida pelo poder público.

O aprendizado foi inesquecível. Aracajuano, porém criado no interior alagoano, vi com os olhos e senti com o corpo o que só a experiência pode mostrar: Caatinga, mandacarus e vegetação hostil para uma criatura conviver. Acrescente agora a falta de água e o solo pobre para plantar. Este é o cenário.

Os personagens são pessoas humildes, simples, desprovidas financeiramente, mas, absolutamente hospitaleiras, amigas e dispostas a ajudar. Com chapéu de couro sobre a cabeça e sotaque regional, estas pessoas fascinantes passam fome e sede, mas são capazes de saciar as necessidades de qualquer visitante com o que houver de melhor em suas panelas e com o que tanto lhes faz falta: a água. O coração do sertanejo é maior do que o sofrimento causado pela política da seca.

Meu retorno ao cicloturismo não podia ser melhor. Convidei vários ciclistas para me acompanharem na empreitada, foram tantas desculpas e promessas que preferi ir sozinho. Não foi a minha primeira vez que viajei sozinho. Prefiro não depender de ninguém para realizar minhas façanhas.

O maior problema que eu enfrentaria seria água, então, além da caramanhola térmica de 500 ml, levei um camel bak de 1,5 lt. Foi suficiente. Mesmo com o tempo nublado, você não pára de beber água. Ao longo do trajeto, não faltam casinhas de taipa, povoados, colônias, postos e o carinho do povo.

Sexta-feira, dia 25/03, 04:30 da manhã. Despeço-me dos familiares, reviso a bagagem e pego a estrada. Ainda estava escuro e o cuidado e a atenção tinham que ser redobrados. Rodovias com buracos e risco de acidente são um perigo em qualquer viagem. Na rodovia BR-235 rumo à Itabaiana, havia pouco movimento e temperatura agradável. Apesar de saber da distância que faltava, pedalei com giro rápido para ganhar estrada e aquecer o corpo.

Chegando a Areia Branca, tive que enfrentar o temido Morro do Cafuz, com uma subida cheia de sinuoses perigosas e alta inclinação. Cheguei em Itabaiana, às 07:00 hs. Parei na praça e fiz meu café da manhã reforçado. Como sempre, não faltou gente pra me olhar com interrogação e certa admiração (ciclista que não gosta disso, não viaje!). Aproveitei que o celular estava com sinal e acordei meus familiares.

Peguei novamente a estrada e entrei para a rodovia que leva à Ribeirópolis. Conservada e com pouco movimento é o tipo ideal pra quem quer chegar vivo ao destino. Cheguei em Ribeirópolis e parei para encher a caramanhola. Segui direto, sem observar a placa que sinalizava para ir à Aparecida. Lá vou eu, seguindo pelo caminho errado, sem perceber.

Peguei a rodovia rumo à Serra do Machado, parei para foto em frente a uma casa de taipa e um agricultor puxou conversa. Quando me disse que estava no caminho errado, duvidei. Peguei meu mapa e ele realmente estava certo. Foram 8 quilômetros perdidos! Conversamos bastante. O agricultor agradeceu a foto em sua residência e eu agradeci pela atenção que tanto me ajudou. Tive que voltar à Ribeirópolis. Aproveitei e refresquei-me com um refrigerante. Antes de pegar a estrada, parei para pedir água. Fui excelentemente bem atendido com água e cortesia.

Lá vou eu pela rodovia que leva ao município conhecido como princesa do sertão, N.Sra.da Glória. Subo novamente várias serras longas, inclinadas e altas. Pense! Também foi por aí que começou um incômodo: assadura. Eram quase 100 quilômetros e ainda tinha muito chão pela frente.

O cenário do sertão é tão fascinante que tive o privilégio de fazer o que um motorista não pode fazer: dirigir e contemplar imagens maravilhosas. Cheguei em N.Sra. Aparecida e fui recebido com o sorriso de tanta gente bonita. Parei, pedi uma água de côco e descansei um pouco, conversando com o atendente. Como sempre, perguntas do tipo “de onde vem?”, “pra onde vai?” não faltaram. Fui ver a igreja matriz e a bela praça principal. Apesar de ser um pequeno município, a limpeza urbana, ruas pavimentadas e arborizadas encantam os olhos de qualquer ecologista. Não é só isso, a cidade é cheia de mulher bonita... Se não tivesse tanto chão pela frente...

A estrada até N.Sra.da Glória é cansativa. Cheguei lá pelas 12:15 hs e demorei encontrar um restaurante para almoçar. No que eu entrei, encostei a bike ao lado dos carros caros e motos esportivas. A carinhosa atendente perguntou se eu tinha feito promessa ou se eu tinha feito aposta. Como eu já esperava, ficou pálida com a resposta. Depois do meu abastecimento físico, a garotinha escreveu na comanda: “Deus te acompanha em todos os seus passos”. Guardei o papelzinho para dar sorte na viagem!

Sentei na praça e pensei em descansar. Quem descansou? Crianças e vaqueiros perguntavam o tempo todo! Nossa! Lá vou eu mais uma vez. Desci a ladeira rumo à Monte Alegre. Lá, o atendimento foi cativante, mesmo sem comprar nada. Mais adiante, parei para fotos no trevo para as cidades de Porto da Folha e Poço Redondo. Só faltavam 47 quilômetros. Estimei chegar, no máximo, às 18:00 hs.

Passei pelo povoado Lagoa Redonda, pertencente ao município de Porto da Folha e, mais carinho do povo sertanejo. Embalado pela descida e aquecido com mais de 150 quilômetros, resolvi não parar, apesar da gritaria! Cheguei ao povoado Sítios Novos, já no município de Poço Redondo, mais uma vez não parei. Mais adiante, passei por um vilarejo, sem perceber, era a cidade de Poço Redondo! Perdi a oportunidade de fotografar um monumento em homenagem ao cangaceiro Virgulino Ferreira, o Lampião. Só fui saber mais tarde!

Pedras enormes, vegetação rasteira cheia de cactus e mandacarus, lembraram minha passagem pelo estado do Rio Grande do Norte. Acampamentos do MST foi o que mais enxerguei depois de Poço Redondo. No cansaço da viagem, refleti sobre o facão na mão do homem da bandeira vermelha do MST. Fiquei revoltado. Só consigo imaginar paz se não existir arma. Porém, lembrei o quanto os governantes oprimem o povo. Preferi deixar discursos políticos de lado e seguir viagem.

A chuva fina marcou a minha chegada ao destino de minha aventura. Cheguei em Canindé de São Francisco, encontro de Sergipe com a Bahia e Alagoas, às 17:00 hs. Foto comemorativa e entrei na cidade, rumo a uma pousada, pois não conhecia ninguém. Hospedei-me economicamente e tratei de fazer os contatos com os familiares. Todo mundo satisfeito, fui andar na cidade.

Sábado, dia de feira e o povo no corre-corre. Desci a serra que leva à CHESF (Companhia Hidrelétrica do São Francisco), pense num downhill arretado! Ao encontrar o Velho Chico, fiquei fascinado com tamanha imponência. Uma cascata gigante com água branca e um vapor de quase 10 metros de altura! O encontro da engenharia humana com a força da natureza. Turistas da Europa e de outros estados por todos os cantos. Mais uma vez, lá vou eu explicar a minha coragem...

Deitei a bike na beira do rio e me joguei no rio São Francisco. Água doce, limpa e transparente. Porém, traiçoeira com uma correnteza forte e perigosa. Depois de matar a secura, pego a bike. Pneu furado. Deixei os remendos, câmaras e bomba na pousada. Subir os 4 quilômetros de serra arrastando a estradeira não era o meu desejo. Sentei no ponto, soltei a roda e esperei. Um tratorista acenou e eu peguei a carona. Foi engraçado subir a ladeira com o pula-pula do trator e os operários sorridentes.

Ainda voltei lá depois para fotos e pedaladas. Esgotei o filme. À noite, tinha um forró pé-de-serra no centro de Canindé, fiquei todo empolgadinho... Alegria em vão! A chuva forte por mais de 2 horas afastou qualquer forró-bodó! Bateu saudade e fui ligar para os familiares novamente.

No domingo, acordei cedo e fui à Piranhas, em Alagoas. Tinham me avisado, eu fui teimar! Depois da ponte que separa os estados de Sergipe e Alagoas tem uma serra de quase 6 quilômetros de subida! Entra curva, sai curva e nada de chegar! Lá em cima, o prêmio: o Mirante de Xingó. Fiquei revoltado com a falta da câmera! É espetacular! O coração não agüentou! Fiz uma oração e quase chorei. É uma emoção sem preço!

Desci para a usina e fiquei ainda mais emocionado. Muito bem recebido pelo guarda, conversamos sobre tudo. O piso da usina tem voltagem de 440 volts e a chuva do dia anterior quase entupiu uma das comportas com barro. Por medida de segurança e por estar calçado com sapatilha, não fui mais adiante. Nem precisava. Nunca vou esquecer tamanha beleza natural e arquitetônica.

Voltei pra casa com a bike no bagageiro do ônibus. Já tinha visto tudo que queria ver e sentir. Com pouco dinheiro e uma bike você se diverte tanto que ganha sentido em sua vida e conhece melhor a si mesmo, fazendo amigos e aprendendo com as dificuldades.

A bike dispensa sua apresentação. Sua simpatia, atenção e carinho cativam sua presença em qualquer lugar. Humildade e simplicidade são virtudes desenvolvidas pelos verdadeiros cicloturistas e ciclistas que se prezam.

Como disse o grande músico Luis Gonzaga: “Minha vida é andar por esse país, pra ver se um dia descanso feliz. Guardando as recordações das terras onde passei, andando pelo sertão e os amigos que lá deixei...

O escritor Euclides da Cunha, jornalista que cobriu a Guerra de Canudos, no sertão baiano, registrou em seu livro, Os sertões, a seguinte frase: "O sertanejo é antes de tudo, um forte!".


José Marcelo Pereira - Diretor de Imprensa da FSC
 

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