
![]()
VIAGEM DE ARACAJU/SE À FEIRA DE SANTANA/BA
EDITOR DO SITE BIKESERGIPE PEDALOU 310 KMS EM 2 DIAS
Participação de José Marcelo na Copa BikeSergipe de Mountain Bike Desde que comecei a praticar cicloturismo, em 1998, jamais pensei em fazer uma viagem como a que fiz nos dias 07 e 08 de outubro. Eu mesmo a classifico como uma loucura. Mas se toda loucura fosse como essa...
Tudo começou quando no primeiro dia deste mês, recebi o Aviso de Férias. Eu não esperava ter essa folga agora. Fiquei desnorteado, sem saber o que fazer. Foi quando surgiu a confirmação da 3ª Volta Ciclística de Feira de Santana, na Bahia. Tive vontade de ir prestigiar o evento e ver os colegas barbarizando. Não quis competir devido ao meu nível técnico diante das maiores feras do nordeste. Porém, somente assistir era muito pouco para o meu espírito aventureiro. Decidi então ir pedalando de Aracaju, minha terra natal, à Feira de Santana, local do evento.
Desde que firmei contrato com a minha neguinha (a bicicleta) para irmos juntos, ninguém me deixou em paz. Vários familiares me pediram para cancelar a “loucura”, mas teimei e fiz a maior viagem da minha vida sobre uma magrela. Acompanhe tudo a seguir:
Dia 07 - sexta-feira: Depois de vários ajustes na bike nos dias anteriores, monto a bagagem para zarpar. Estava tenso. Não conhecia Feira de Santana, as estradas baianas, nem ao menos tinha treinado para pedalar mais de trezentos quilômetros! Como já fiz muitas outras viagens de centenas de quilômetros, consegui relaxar um pouco.
Depois das cinco horas da manhã, pego a estrada. Saí de casa sem a devida refeição. Programei para lanchar na estrada. Às 06:30 hs, parei em Itaporanga d’Ajuda. Fui rápido ao rango e segui em frente. Havia feito apenas 10% do total do percurso.
O calor já começava a pegar forte e às nove horas parei em Estância. Procurei vitamina de banana e não encontrei. Em viagens anteriores sofri muito com a falta da fruta tropical rica em carboidrato e potássio. Tive que me conformar com sucos enlatados e frituras. Liguei para a família para informar que ainda estava vivo!
Depois de Estância, começo uma pedalada com subidas longas e trechos desérticos. Passando por um dos povoados, senti o delicioso cheiro de farinha feita na hora. Relembrei meu tempo de infância na cidade de Junqueiro, interior de Alagoas. Que nostalgia! O povo hospitaleiro da região me saudava com gritos e com mãos acenando. A vontade de parar era enorme, mas tinha muito chão pela frente. Retribuí o carinho acenando também.
Em Umbaúba, entrei na cidade procurando alguma lanchonete com vitamina e também não encontrei. Tomei água de côco e voltei para a rodovia. O olhar curioso das pessoas só aumentava a minha vontade de chegar à cidade portal do sertão. Procurei girar mais rápido para chegar em Cristinápolis e almoçar.
Chegando em Cristinápolis, encarei uma subida comprida e durante o sprint, ouvi um raio partir na roda dianteira. Começou meu prejuízo... Entrei na cidade e fui ao restaurante renovar minhas energias. Um caminhoneiro paraibano conversou comigo e me deu grande apoio. Após a merecida refeição, descansei um pouco e revisei a neguinha. Novamente pronto para continuar, liguei para a família e ganhei mais energia positiva.
Entrando na Bahia, encaro um estradão com um calor de quase quarenta graus. A placa que marca o quilômetro zero começava a me desesperar. O mormaço do asfalto, o deserto da região e as ladeiras serranas testavam a minha paciência e o meu estado psicológico. Coisas do cicloturismo...
Estava com 132 quilômetros, quando o pneu furou. Parei em um povoado próximo para trocar a câmara. Abasteci a caramanhola com água de côco e conversei com alguns moradores da comunidade pertencente à Rio Real. Ainda não tinha ouvido nenhum sotaque baiano.
A viagem começou a ficar desgastante quando subia e descia serra e não via mais nenhum pé de gente. Na metade de uma delas, peguei o vácuo de uma carreta e segurei o ritmo apesar do cansaço.
Chegando em Esplanada, observei as indústrias madeireiras da cidade e resolvi não parar. Quem passa pela rodovia vê a cidade lá embaixo... Quilômetros adiante, cheguei em um posto para lanchar e revisar a viagem. Descansei um pouco vendo o crepúsculo nas serras baianas. Faltavam 10 quilômetros para chegar em Entre Rios. Fui informado que ainda restavam 57 quilômetros para chegar em Alagoinhas. Por segurança, resolvi parar em Entre Rios para dormir.
Cheguei em Entre Rios às 18:00 hs. Havia percorrido 180 quilômetros. Pedalar à noite em uma rodovia desconhecida e esgotado fisicamente seria um risco ao qual não me interessava. Hospedei-me na Pousada do Chico e recebi o excelente atendimento do povo baiano em todos os sentidos.
Dia 08 - sábado: Acordei cedo e preparei a bagagem novamente. Caprichei na alimentação, pois sabia que ainda tinha 130 quilômetros de estradas serranas pela frente. As assaduras estavam melhores, mas ainda incomodavam. Saindo de Entre Rios vejo uma longa subida com sinuoses. Um operário montado em uma bicicleta do tipo Barra Circular tentou me acompanhar. Faz parte do cicloturismo...
A longa estrada reta foi boa para desenvolver um bom giro. No povoado Mangueira, pertencente ao município de Alagoinhas, parei, fui bem atendido e descansei um pouco. Parei também no posto após o trevo para Paulo Afonso. Tomar uma misturada de açaí com guaraná foi interessante. Chegando na cidade de Alagoinhas, resolvi não parar, tendo em vista os 73 quilômetros restantes.
O meu suplício começou quando as longas subidas e o forte calor juntaram-se com as assaduras e o desgaste psicológico. Pedalar sozinho tem vantagens e desvantagens... A pressão aumentou com o deserto interminável e a falta de sinalizações. Parei em um posto e fui descansar. Estava esgotado. Comecei a pensar nos conselhos da família...
A angústia aumentou quando o frentista eloqüentemente me disse que restavam “apenas” 50 quilômetros para chegar em Feira de Santana. Sinceramente, tive vontade de desistir, mas não era mais possível. Eu tinha que completar a viagem. Tomei água gelada, respirei, orei, lubrifiquei a corrente, olhei para estrada e resolvi seguir sem pensar nos quilômetros restantes. Funcionou.
Em Conceição do Jacuípe, parei para almoçar. Melhorei muito a minha auto-estima quando o atendente me disse que também fazia cicloturismo e cross country. Falamos em nosso idioma e relaxei. Tive que dispensar o freio dianteiro devido a mais um raio quebrado e a roda empenada.
Voltei para a estrada e encontrei a turma de ciclismo de Aracaju, que estava indo de carro, à Feira de Santana disputar a prova. Conversamos e continuei minha viagem solitária. Saindo da BR-101 e entrando na rodovia 116 fui surpreendido com os últimos e piores quilômetros da viagem. Uma rodovia sem acostamento decente com todo o terror conhecido pelos estradeiros: buracos, vidros, pedaços de pneus com arames e chão íngreme completamente. Um verdadeiro free-ride para driblar tantos obstáculos.
Pedalar sobre a faixa branca da pista era um suicídio, pois os caminhões passavam por ali em alta velocidade. O jeito era subir olhando para trás e saltar quando estavam perto. Foi assim que chegando em Feira de Santana, uma pickup S10 bateu o retrovisor violentamente em minhas costas. O choque, graças à Papai do Céu, só me assustou. O motorista não parou e ficou com o prejuízo material.
Encerrei a longa viagem às 15:00 hs e fui ao 35º Batalhão de Infantaria, quartel do Exército onde estava o alojamento para a 3ª Volta Ciclística de Feira de Santana. Fui muito bem recebido pelos amigos e fomos ao Congresso Técnico, realizado pela Confederação Brasileira de Ciclismo e Federação Baiana de Ciclismo.
A prova no dia seguinte foi bonita, digna de um grande evento de ciclismo. Contou com a presença de atletas de mais de 6 estados brasileiros e com a ilustre presença de Márcio May, simpático, amigo e finíssima pessoa. Encontrei e conheci também outros tantos amigos de tantos lugares.
Depois de viajar tanto, conhecer a linda Feira de Santana e prestigiar uma das maiores solenidades do ciclismo nordestino, fui de ônibus à Salvador, capital baiana e retornei à minha maravilhosa Aracaju com a bike na bagagem do “buzu”.
Cicloturismo é um desafio em todos os sentidos. Só cara e coragem não bastam para encarar estradas e obstáculos. Os aventureiros sabem que serão recompensados. Antes de pegar a estrada para praticar o cicloturismo faça uma revisão geral na bike e em seu corpo.
ciclismo mountain bike bicicross cicloturismo sabadão street bikers pedal livre CCVSF ranking fotos SPD fotos MTB links mural notícias classificados dicionário dicas editor