Histórias de Cicloturismo:

Todo cicloturista tem histórias pra contar. Independente da viagem ser longa ou curta, nunca falta a satisfação de trocar figurinhas com outros estradeiros ou interessados sobre detalhes de suas viagens. Pensando nisso, o site BikeSergipe inaugura a partir dessa edição a seção Histórias de Cicloturismo.

Essa seção é um espaço aberto aos colegas cicloturistas que querem contar suas histórias, expressar suas dificuldades e registrar suas pedaladas mundo afora. Envie um resumo de sua aventura com fotos e outros recursos para ajudar-nos a divulgar a filosofia do cicloturismo e a liberdade proporcionada em viajar sobre uma magrela.

Para começar, eis aqui duas histórias contadas pelo editor do site BikeSergipe em sua aventuras pelos Estados da Bahia e de Alagoas. Agradecemos seus comentários.

VIAGEM/PASSEIO DE ARACAJU-SE/RIO REAL-BA/ARACAJU-SE

Realizada no dia: 21/11/1999
Total de quilômetros percorridos: 245 km (ida e volta)
Tempo total de pedalada: 12 horas
Tipo de bike: Speed

 Li sobre a história da cidade e resolvi zarpar na semana seguinte. Sabia que não seria fácil, mas resolvi teimar. Procurei alguns amigos para fazer companhia, todo mundo admirava, mas ninguém tinha coragem de fazer comigo a empreitada. Nunca havia conhecido a região sul de Sergipe. Meu plano era chegar até Cristinápolis/SE e voltar com minha bike speed.

 Havia feito, meses antes, uma viagem à Propriá/SE, região norte, com uma galera com ida e volta no mesmo dia. Foi coisa de louco, anoitecemos na pista e as tremedeiras começaram. Ninguém tinha muita experiência, alguns estavam viajando com bicicleta pela primeira vez. Todos, inclusive eu, estavam assustados. Pedalamos muito e um dos integrantes quase desmaiou depois de 190 quilômetros e faltando apenas 10 quilômetros para a chegada. Depois disso procurei tomar mais cuidado com as companhias de pedal. Por isso, não fiz muita questão de procurar alguém para ir comigo rumo à Cristinápolis.

 Passei uma semana inteira pensando na viagem. Procurei evitar dizer a alguns familiares porque, em viagens anteriores, me chamaram de maluco, doido varrido e coisas do gênero. Avisei minha decisão à minha família faltando dois dias para a viagem, pois ouviria menos “conselhos”.

 Chegou o dia. Sozinho, lá vou eu pela avenida rumo à BR-101. Sinto o pneu traseiro pesado, era o pneu furado. Paro para consertar com pressa, pois era quatro horas da manhã e eu não podia perder tempo. De volta, lá pelas 07:00 hs encontrei um amigo que estava treinando ciclismo, perguntou aonde eu ia e quando respondi o cara tremeu todo. Disse-me que tinha muita coragem e desejou-me sorte. Valeu.

 Lá vou eu pedalando por uma estrada desconhecida. Pensava em tudo. Se não desse certo, pegaria um ônibus e voltava para casa, mas isso estava longe dos meus planos. Tinha muita confiança no que estava fazendo. Quando subia aquelas longas ladeiras ficava pensando nas descidas da volta. Tinha pouca experiência, pouco dinheiro, pouco equipamento, mas tinha a cara e a coragem para fazer a viagem que aguardei ansiosamente.

 Passei por várias cidades e, como todo cicloturista, não faltava gente para observar e comentar sobre a minha viagem. Parei em Estância para hidratação e peguei a estrada. Conheci muitos povoados à beira da rodovia e só pensava em pedalar mais e mais. Até chegar em Umbaúba, cidade vizinha ao meu destino, senti o cansaço da viagem. Mas não me entreguei. Continuei firme até Cristinápolis, destino da empreitada.

 Eu tinha combinado com a família que quando chegasse lá ligaria e daria as notícias. Cumpri a promessa. Tudo bem. Parei para lanchar e o atendente sugeriu que eu fosse visitar a ponte de Rio Real, aproveitaria e tomaria um banho. Lá vou eu, aumentando o percurso e quebrando o plano inicial. Atravessei a fronteira com a Bahia e cheguei em Rio Real. Parei em um restaurante e bati papo com alguns caminhoneiros que estavam parados. Almocei, revisei a bike e a bagagem, descansei um pouco e comecei a voltar para casa.

 Mais adiante, perto da fronteira de Sergipe/Bahia, o cabo de aço do câmbio dianteiro soltou-se. Sem ferramenta, tive que continuar usando apenas a roda menor (42 dentes). Precisava de velocidade, e fui obrigado a girar. Pensei em parar para conserto, mas, sabe-se lá se encontraria alguma oficina? Resolvi seguir assim mesmo.

 Não senti muita dificuldade. Olhava para o ciclocomputador e estava em 150 quilômetros. Já sentia o desgaste. Vi de longe um acidente de carros e, passando pela multidão, não faltaram olhares admirados. Anoiteci na estrada e dependia do farol dos carros para observar o que estava na minha frente. Em alguns momentos me perguntei sobre a importância da viagem, me senti fazendo algo inútil.

 Faltando 10 quilômetros para chegar em casa, liguei para a família e avisei que estava chegando. Alívio para eles e pra mim. Cheguei tão cansado que quando me sentei sobre a cadeira não consegui levantar mais, nem tirar a roupa. Quando começaram a me amolar perguntando o que ganhei com isso, criei coragem, tomei banho, jantei e fui dormir. No outro dia, revi o roteiro no mapa e concordei com eles. Eu realmente estava louco!

VIAGEM/PASSEIO DE ARACAJU/SE À IGREJA NOVA/AL

Realizada no dia: 06/04/2002
Total de quilômetros percorridos: 136 km
Tempo total de pedalada: 07 horas
Tipo de bike: Mountain Bike

 De repente, senti uma imensa vontade de ver meu filho, que estava no sítio de meu sogro em Igreja Nova/AL, há mais de uma semana. Era quinta-feira. Decidi que iria no sábado, logo cedo. Claro que queria ir pedalando, queria aliar o útil ao agradável.

 Estava gripado, sem câmara de ar reserva, sem bomba, sem ferramentas, sem companhia, não fiz revisão na bike, enfim, sem eira nem beira, mas não dei importância. Não consigo até hoje entender onde arrumei coragem para viajar pedalando sem preparação física e material. Só sei que peguei a estrada e fui embora.

 Saí de casa depois das cinco horas da manhã. Pernas pra que te quero?! Próximo à Laranjeiras, ou seja com 17 quilômetros de pedaladas, senti a respiração ofegante. Era a gripe. Procurei ignora-la. Pedal nela! Depois de Maruim, já com 35 quilômetros de distância de Aracaju, Resolvi parar. Sentei no asfalto do acostamento e não tive vontade de continuar.

 A respiração deficiente me fez refletir sobre a viagem. Por que continuar? Lembrei de outras tantas viagens que já tinha feito. Muito maiores e melhores. Senti-me uma porcaria. Um bagaço. Passou um filme em minha cabeça, aquele cara acostumado a pedalar centenas de quilômetros, estava chorando com apenas 35! Levantei-me, fiz uns alongamentos, olhei para a pista e resolvi continuar. 

Parei novamente em 64 quilômetros do ponto de partida. Não era possível. Agora era cansaço físico, nariz entupido, fome e sede! Era 10:20 da manhã e começava a me preocupar. Subi a serra de Capela e cheguei no posto de combustíveis. Estava decidido a voltar pra casa. Resolvi fazer um lanche. Pedi uma vitamina de banana. Lembrei do potássio e do carboidrato, dois elementos indispensáveis no sangue de um cicloturista. Quando terminei o lanche, senti uma coisa estranha. O corpo adorou a bananada! Senti-me novo! Que voltar pra casa que nada! Vou seguir viagem!

 Peguei a estrada e já não sentia mais nada. Estava anestesiado! Nem o nariz estava mais congestionado. Pedalei firme até Propriá, fronteira de Sergipe com o estado de Alagoas. Era meio-dia. Lanchei novamente com vitamina de banana e tomei um banho. Haja disposição para completar os “míseros” 36 quilômetros restantes!

 Atravessei a bela ponte sobre o rio São Francisco e tome pedal. As ladeiras, os acostamentos, os buracos da BR-101 de Alagoas são terríveis. Em uma das subidas, pedi a morte! Parecia não ter fim! Para a minha felicidade, no topo havia um barraco vendendo água de côco e melancias! Era a minha salvação! Uma família de Lauro de Freitas/BA, que viajava de carro também parou e conversamos muito. Que bom ser cicloturista, todo mundo se coloca em seu lugar! Ninguém lhe conhece, mas todo mundo lhe ajuda!

 Lá estou eu de novo na estrada. Parecia que o trevo de Igreja Nova não chegava nunca! Paciência. Passei pelo trevo e começo a escalar os paredões que ainda restavam nos últimos 15 quilômetros. Na subida para chegar na cidade, já esgotado fisicamente e com a mente nas últimas, crianças me observavam e perguntaram se eu estava vindo de São Paulo! Pense!

 Restavam apenas 4 quilômetros para chegar no sítio e a ansiedade começava a me matar. A rodovia esburacada me forçou a fazer zigue-zagues radicais. Lembrei das provas de Cross Country. Chegando no sítio, encontrei minha família e tive que dar mil explicações sobre a viagem.

 Não é a toa que tanta gente se surpreende com o cicloturismo. É coisa para gente humilde, que espera aprender com os detalhes. Fazer amigos em todos os cantos por onde passa. O sofrimento existe para ser superado. Este mundo materialista lhe leva a esquecer de dar valor a si mesmo. O auto-conhecimento é facilitado se você der uma chance a você mesmo.

Mande-nos seu comentário sobre a nossa nova seção e alguma história de suas viagens.

José Marcelo Pereira
Editor do site BikeSergipe

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